Um trabalhador que sai de casa em Novo Gama antes das seis da manhã, pega o ônibus que atravessa a divisa e chega ao Plano Piloto para o turno das oito, vive na prática a diferença que os números tentam esconder. Do lado goiano da placa, a taxa de homicídios chega a 24,1 por 100 mil habitantes; do lado brasiliense, cai para 10,3. Essa distância de poucos quilômetros é o que o slogan de “melhor segurança pública do Brasil” não consegue explicar.
O contraste que a divisa revela
O Atlas da Violência 2026, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com dados de 2024, coloca as cidades goianas do Entorno entre as mais letais do Estado: Luziânia registra 27,1 homicídios por 100 mil, Novo Gama 24,1, Planaltina de Goiás 22,3 e Valparaíso de Goiás 21,1. Todas ficam bem acima da média de Goiânia e mais que o dobro da taxa registrada no Distrito Federal.
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, também com números de 2025, mostra Goiás com 16,5 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, mais que o dobro de Santa Catarina e de São Paulo. O Ranking de Competitividade dos Estados 2026, da CLP e Tendências Consultoria, posiciona o Estado em décimo lugar no pilar de Segurança Pública, com nota 43,4.
O governador Daniel Vilela, que assumiu o cargo em 31 de março de 2026 e disputa a reeleição, repetiu no Dia da Independência, 7 de setembro, que Goiás “conquistou sua independência porque é um Estado seguro”. A frase ecoa a campanha que destaca a segurança como principal vitrine. Os dados do Entorno, porém, mostram que a média estadual não reflete a realidade das cidades que fazem divisa com Brasília.
Na segurança pública o Estado ficou este ano em décimo lugar, mas já tinha piorado muito em 2024 e ficou em 17º.
Fabiana Pulcineli, jornalista, no podcast Papo Político nº 1032, da CBN Goiânia
Os limites da informação disponível
A jornalista Fabiana Pulcineli, no podcast Papo Político nº 1032 da CBN Goiânia, chamou atenção para outros indicadores que acompanham a qualidade dos registros. Goiás aparece em 23º lugar em qualidade da informação criminal, 19º em mortes a esclarecer, 17º em violência sexual e 13º em feminicídio. Esses números vêm de fontes oficiais como Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Departamento Penitenciário Nacional, DataSUS e IBGE.
O crescimento populacional rápido do Entorno, combinado com a rotina de quem trabalha no Distrito Federal e dorme em Goiás, cria uma pressão sobre os serviços públicos que não foi acompanhada por estrutura equivalente. A responsabilidade pela segurança nessas cidades continua sendo do governo estadual, independentemente da origem dos moradores.
Goiás está muito mal nesse item que trata dos registros estatísticos, que é responsabilidade do Estado. Aparece em 23º.
Fabiana Pulcineli, jornalista, no podcast Papo Político nº 1032, da CBN Goiânia
Mortes a esclarecer, que é um outro índice desses 11: Goiás está em 19º lugar. Avalia a proporção de óbitos por intenção indeterminada em relação ao total das mortes. Goiás aparece num índice muito ruim.
Fabiana Pulcineli, jornalista, no podcast Papo Político nº 1032, da CBN Goiânia
Reconhecer que houve queda real na letalidade em várias regiões de Goiás não anula a pergunta sobre o que o superlativo “melhor” esconde quando se olha apenas para a média. O Entorno funciona como termômetro preciso porque a linha divisória permite comparação direta entre duas administrações em espaço contínuo.
O que se cobra agora
Em ano de campanha, a cobrança mais concreta é a apresentação de um plano específico para o Entorno, com metas numéricas, prazos e dados publicados periodicamente. O mesmo rigor exigido para a qualidade da informação criminal vale para a execução: o morador quer ver, mês a mês, se os índices das cidades de divisa estão se aproximando do patamar registrado do outro lado da placa.
Quem cruza a fronteira todos os dias já sabe que a segurança não para na placa de “bem-vindo a Goiás”. O que falta é o Estado tratar essa faixa como prioridade verificável, não como estatística que some na média.